Mariana Vasconcelos

I Love Aveiro

Parte à descoberta



História é identidade

A identidade de um local não se reduz a estradas, prédios ou pontes. A identidade é criada pelo coletivo de histórias individuais que se entrecruzam e que, no seu conjunto, formam uma herança cultural. Numa cidade com um crescente fluxo turístico e envelhecimento da população torna-se necessário eternizar estas histórias, valorizando o património humano. Assim surge o “I Love Aveiro”.

O I Love Aveiro é composto por diferentes edições, cada qual correspondendo a uma colectânea de diferentes histórias. Em 2019 criámos o “Stories for Solidarity”. Entrevistámos imigrantes que moram em Aveiro, para darem o seu testemunho sobre o que é vir de um país diferente para a cidade dos canais. Em 2020, lançamos o “Heróis de Aveiro” e com este prestamos homenagem aos homens e mulheres que, embora não usando uma capa, salvam vidas.

Escadaria “I Love Aveiro” – onde tudo começou

Não só os Aveirenses, como também aqueles que visitam a “cidade dos canais”, conhecem a escadaria mais famosa de Aveiro. Estas escadas, ao lado do canal principal da Ria de Aveiro, e a poucos minutos a pé do centro da cidade, enviam uma mensagem com a qual todos concordamos: “Eu Adoro Aveiro”.

Esta escadaria, feita de calçada portuguesa, foi decorada pela primeira vez na primavera de 2013 pela Agora Aveiro através do projeto internacional “Art and Trust”. Este trabalho, implementado para oferecer oportunidades de expressão aos mais jovens, foi criado em colaboração com os especialistas em graffiti da SublimeVilla, um conhecido estúdio de tatuagens. Um processo semelhante aconteceu simultaneamente na Sicília, em Itália, onde uma outra organização parceira fez as suas próprias acções de arte de rua com o seu grupo de jovens.

De repente, as escadas, outrora cinzentas, tornaram-se num dos locais mais famosos da cidade, sendo hoje um dos símbolos de Aveiro.

Stories for Solidarity

O “Stories for Solidarity” nasceu porque amamos a nossa cidade. Queremos uma sociedade mais compassiva, onde os nossos cidadãos não desviem o olhar da luta. Queremos que as pessoas reflitam, sim, mas também queremos que elas tomem medidas. Apoiar os imigrantes e as iniciativas de inclusão social em vez de ignorá-los. É sempre um desafio mudar as atitudes das pessoas ao nosso redor. Não é exatamente algo que dependa de nós, mas podemos fornecer informações para as pessoas pensarem e reavaliarem a sua posição. Entrevistámos 11 imigrantes que atualmente moram em Aveiro, para que eles possam guiar o leitor através de como é vir de um país diferente e morar aqui. Talvez depois de ouvirem estas histórias como nós as ouvimos, as pessoas percebam que não somos assim tão diferentes.

Encontras estranhos na rua e nem pensas em saber quem são eles ou o que os trouxe até aqui, mas a verdade é que eles fazem parte do tecido da mesma comunidade que tu. Eles são seres humanos também. Podes realmente conhecer um lugar sem conhecer os seus habitantes? E podes honestamente conhecer os seus habitantes, se não conheces as histórias deles?

Estas histórias não são meras referências a pontos turísticos que qualquer visitante em busca de ovos moles acaba por conhecer. São incríveis narrativas sobre pessoas cativantes, locais memoráveis e acontecimentos únicos.

O “I Love Aveiro – Stories for Solidarity” foi financiado pelo programa Corpo Europeu de Solidariedade da Comissão Europeia, pelo Município de Aveiro e pelo Instituto Português do Desporto e Juventude I.P..

Heróis de Aveiro

Com o “Heróis de Aveiro” prestamos homenagem aos homens e mulheres que, embora não usando uma capa, salvam vidas! Bombeiros, médicos, polícias e enfermeiros, mas também professores, vizinhos e amigos. Pessoas que dedicam o seu tempo e capacidades a melhorar a nossa cidade. Pessoas que não se vêm a si próprias como “heróis”, mas que o são para a comunidade. Reconhecemos assim o trabalho destes profissionais e, ao mesmo tempo, mostramos como cada um de nós também pode ser um herói.

O “I Love Aveiro – Heroes of Aveiro” foi financiado pelo programa Corpo Europeu de Solidariedade da Comissão Europeia, pelo Município de Aveiro e pelo Instituto Português do Desporto e Juventude I.P..

A cada pessoa está associado um ponto no mapa da nossa cidade para que possas descobrir mais sobre a sua história!
Seleciona a edição do I Love Aveiro que pretendes explorar e clica num ponto no mapa para descobrires, por ti próprio, os segredos que Aveiro esconde.

“Um Toque de Estranheza”

– uma história de Agnes

Tinha esta ideia de tentar viver no estrangeiro durante algum tempo, para me empurrar para fora da minha zona de conforto. Em 2010, cheguei a Aveiro para o que acreditava serem 6 meses. Contudo, ainda aqui estou.

Aveiro é uma cidade pequena fascinante. Na realidade, uma cidade grande pelos padrões da Letónia. Tem um belo encanto, com os canais e os barcos com toques artísticos que dão caráter ao cenário, que fazem o centro ganhar vida enquanto o tornam romântico e colorido.

Aveiro até tem um lado arrepiante porque nunca, na minha vida, vi um sítio onde o centro comercial fosse ao lado do cemitério. Ao pôr-do-sol, aqueles mausoléus seriam o cenário perfeito para filmar cenas de um filme de terror.

A Universidade de Aveiro continua a ser o meu lugar preferido para estudar. Tem a biblioteca mais bonita, diria até mesmo espiritual. A vista para a Ria de Aveiro e a luz do sol tornam-na mágica. É também onde conheci o meu marido. Assumi que ia voltar para a Letónia para terminar os meus estudos, e que a nossa relação eventualmente acabaria. Bem, não foi isso que aconteceu. Ele é a razão pela qual eu voltei para Aveiro 3 anos mais tarde.

Desta vez, deixar a minha vida na Letónia para trás foi muito difícil. De partir o coração, quando penso no quão difícil foi para a minha família deixar-me ir. Sabendo que eu estava a deixar a minha terra natal por aquilo que sabia que, no fundo, podia ser para a vida toda, comecei a ver Aveiro com outros olhos. Talvez de forma mais crítica, mais realista. Isto já não era uma aventura de 6 meses. Todos os dias, em todas os contextos, há ocasiões ou diferenças culturais que me fazem sorrir ou me deixam louca. Quero dizer, ainda acho estranho quando 3 pessoas na mesma sala se chamam João.

Sempre me senti acolhida, mas o sentimento de que sou estrangeira nunca me deixou. É difícil descrever, mas há regras não escritas e gestos inexplicáveis, palavras e atitudes que me relembram que não sou portuguesa.

Mas há tantas coisas aqui que me fazem feliz. A primeira é o número de dias soalheiros. Eu acho que sorrio mais aqui do que na Letónia por causa do sol. O oceano não para de me encantar. A minha paixão é a Costa Nova, com as suas casas de pijama, tão giras, tão únicas. Aprecio os dias de sol com ondas gigantes na Primavera e Outono, quando há menos pessoas na praia. Adoro o café e o cheiro que escapa das padarias quando passamos por elas.

Acredito que os Portugueses são das pessoas mais abertas e tolerantes do mundo. E, em geral, adoram crianças. Olho para o lado por um segundo e a minha filha de 2 anos está a tirar coisas das prateleiras do supermercado e a pô-las no chão. Uma senhora, pacientemente, apenas as punha de volta no sítio. Ainda nem mencionei as pessoas de mais idade, prontas a ajudar a minha filha a divertir-se com a confusão que criou.

Houveram muitas situações em que aprendi lições importantes e me reavaliei a mim e à minha atitude. Mas continuo a precisar de me relembrar de levar as coisas com calma.

Quando alguém me pergunta se me vejo a viver em Aveiro para o resto da minha vida, digo sempre que não. É assim que me sinto, mas há uma grande probabilidade de que assim seja. Aveiro é um local agradável para se estar e tem um lugar particularmente especial no meu coração.

“A Transgressão do Pensamento”

– uma história de Ahmad

Quando a guerra na Síria começou em 2011, eu tinha apenas 16 anos e estava pronto para me tornar um revolucionário. Gradualmente, a revolta contra o Presidente Bashar al-Assad tinha-se tornado numa guerra civil de grande escala e o meu pai estava à procura, com mãos e pés, de uma forma de me tirar do país. E conseguiu. Ele encontrou uma forma de eu estudar em Aveiro. Tinha de aceitar porque era isso ou mudar-me para estudar na cidade de Homs, onde a guerra estava a caminho. Era melhor ideia viajar 5000 kms e estudar em Portugal do que a uma hora de distância em Homs.

Eu vivia na capital, que era o sítio mais seguro para se estar. Com o começar da revolução, eu tinha uma visão de mudança. Estava envolvido da única forma que conseguia, numa escala bastante pequena. Não me vejo como alguém que tenha feito muito quando houve pessoas que se comportaram como verdadeiros heróis. Acreditava que algo poderia ser feito, tinha ideias. O que era um crime grande o suficiente.

O último ano que vivi na Síria foi o ano mais fantástico da minha vida. Havia um grupo disposto a mudar o sistema. Associei-me a pessoas fantásticas, víamos filmes, falávamos, aceitávamos as ideias uns dos outros. Havia alguma esperança, mas a pressão, incertezas e medos estavam a crescer com força. Depois, a maioria deles foi-se embora. Os dias estavam a passar e a esperança continuava a desvanecer. As pessoas começaram simplesmente a deixar a Síria. A este ponto, era claro para mim que, no que tocava ao assunto da Síria, era algo maior do que eu, maior do que a minha geração. A minha geração já estava a deixar o país e se a minha geração estava a escapar, não havia muito que pudesse ser feito. Dei o que tinha a dar e tudo ficou sem esperança. Quando a notícia sobre a bolsa de estudos chegou, tudo mudou da noite para o dia.

Nunca tinha viajado antes. 2015 viu o meu primeiro voo de sempre, o meu primeiro e único destino. Lembro-me que Aveiro estava enevoado quando cheguei, a minha cabeça estava igual. Não me lembro dos primeiros 2 meses, era tudo muito confuso. Era muito jovem. De repente, dormia numa cama nova, numa cidade nova, num país novo.

Depois de cinco anos, estou estabelecido em Aveiro. Estou a trabalhar como engenheiro civil numa grande empresa e tenho mais amigos Portugueses do que internacionais, mas, no geral, não sinto que pertença a locais. Tenho sentimentos e memórias sobre os locais e ou os adoro ou não. A maioria das minhas memórias de Aveiro são adoráveis. Já estive em muitas cidades, mas nunca senti o mesmo aconchego que sinto em Aveiro. Já estive noutros lugares e gostei, mas à noite é aqui que eu gosto de dormir.

Não sinto falta de nada em particular da Síria. Voltei lá em 2017 e confirmei isto. Não é o mesmo país. Mudou demograficamente e as pessoas nas ruas são muito diferentes. Têm um olhar morto nas suas caras. Não têm vida nenhuma. O tempo é irrelevante. Não interessa que dia é, que horas são, é tudo o mesmo. Acordas, vais buscar alguma comida e estás preocupado. Preocupaste o dia todo e a noite toda. E isto é a classe média. Não tenho a mínima ideia de como será para as pessoas pobres.

Já ouvi de muitos Portugueses que sou, às vezes, mais Português do que os Portugueses. Acredito que ambos, a comunidade local e os recém-chegados, precisam de se adaptar. Fiz um esforço de, não só aprender a língua, mas também de perceber a mentalidade Portuguesa e os costumes. Eventualmente, as pessoas pararam de mencionar a minha nacionalidade e começaram a ver-me como um ser humano. Isso foi o que eu sempre quis.

“Raízes Sorrateiras Crescem Sob Céus Noturnos”

– uma história de Ayman

Nasci e cresci no Egito. Em 2001, decidi que era hora de sair do meu país para encontrar uma vida melhor. Então, o Canadá tornou-se minha segunda casa oficial, onde estudei e trabalhei.

O tempo passa e, às vezes, há algo em ti que anseia por novas aventuras. Comecei a apaixonar-me pela ideia de me mudar para a Europa depois de algumas viagens a Itália, Portugal e Espanha. Eu estava determinado a mudar-me para o sul da Europa, onde senti que as pessoas viviam para aproveitar a vida, em contraste com o conceito norte-americano, onde parece que as pessoas vivem para o trabalho e as suas carreiras, e talvez apreciem a vida se tiverem oportunidade.

Em 2009, encontrei uma posição dentro de um projeto de três anos em Aveiro e decidi aceitar o desafio e mudar-me para Portugal. Supus que viveria aqui durante alguns anos e depois voltaria para o Canadá ou encontraria outro lugar. MEU! Eu estava enganado!

Não é fácil mudar para um país onde não conheces a língua. Essa foi uma primeira para mim. Eu não sabia uma única palavra em português quando cheguei em Aveiro. No entanto, os portugueses tentam verdadeiramente, tanto quanto conseguem, conversar contigo. Já vi isto por todo o lado em Aveiro, mesmo em pequenas lojas, com pessoas mais velhas que não sabem uma palavra em inglês. Eles tentam e tentam expressar o que querem, de todas as maneiras que podem. Eu adorei tanto isso. Eu senti-me bem-vindo aqui. Comecei a conhecer portugueses e a fazer amizades com muitos deles. Foi encantador.

Aveiro tem um charme único. É uma cidade adorável, com pessoas adoráveis que te acolhem sempre. Tens a praia a apenas alguns minutos de carro e podes apreciar a vista do oceano em qualquer época do ano. Sentes que conheces todos ao teu redor e eles conhecem-te, mesmo aqueles com quem ainda não falaste. Para alguém de uma cidade maior como o Cairo, às vezes fica pequeno demais. Também gosto que possas ir a qualquer sítio em Aveiro a pé. Eu não faço isso! Eu conduzo para todo o lado. Novamente, o efeito de menino da cidade grande.

Os finais do dia e as noites calmas de verão são as melhores. Uma das minhas coisas favoritas de fazer em Aveiro, especialmente depois de um longo dia de trabalho, é sentar-me num dos muitos cafés/bares e desfrutar de uma bebida refrescante enquanto aprecia o pôr-do-sol ou as estrelas em noites de céu limpo.

Ao longo dos anos, sem que eu me apercebesse, a cidade cresceu em mim, eu também cresci e me tornei parte de Aveiro. Eu encontrei amor aqui. Eu conheci minha esposa em Aveiro e casámos num local encantador fora da cidade. Viver aqui com minha esposa e nosso cão tornou fácil para Aveiro tornar-se o lugar para onde eu volto.

Não posso dizer que vou morar em Aveiro para sempre, acredito que ainda há novas aventuras para eu conquistar, provavelmente com novas cidades e países onde morar, e tenho outros dois lugares a que chamo de lar. No entanto, definitivamente, por enquanto, Aveiro é minha casa.

“A Hora Dourada”

– uma história de Josafat

Nunca esteve nos meus planos vir para Aveiro. Mas um dos meus tios sempre falou tão bem da cidade e da universidade que acabei por vir para cá estudar Administração Pública, a área de que gosto bastante. Não foi fácil chegar cá, há tantos requisitos e papelada que é preciso para obter um visto. Apesar disso, tudo pareceu muito repentino. Lembro-me de me preocupar e pensar se gostaria sequer da cidade. Hoje em dia, dificilmente me conseguem tirar de Aveiro.

Lembro-me de as pessoas dizerem o quão difícil iria ser. Eu gosto de enfrentar as coisas diretamente, não sou alguém que tenha medo de desafios. Não importa o quê, eu sei que posso sempre encontrar uma maneira de enfrentá-los e passar para o outro lado com alguma facilidade. O que é bom, porque eu tinha alguns desafios pela frente. Quero dizer, eu vim de um país diferente para morar sozinho numa cidade onde não conhecia ninguém.

Com o tempo, percebi que havia mais, mas quando cheguei em Aveiro, a primeira impressão que tive foi de que era uma cidade muito calma. A minha primeira semana em Aveiro foi muito diferente do que estava habituada, não tinha nada para fazer. Então comecei a explorar e caminhar pelo campus da universidade. Tirar fotos disso da universidade fez sentir-me bem. Explorar este novo mundo através de uma lente ajudou-me a descobrir uma beleza única. Eu acho que é uma das melhores e mais bonitas do país. Tudo está tão próximo que facilita a vida de quem aqui vive e estuda.

Algumas das minhas melhores lembranças acontecem na praça ou com meus amigos no bar dos estudantes. Lembro-me do meu primeiro jantar com todos do meu curso. Bem, eu lembro-me de parte. Podemos ter nos divertido um pouco demais. Até hoje, ainda não sei como acordei nas residências do campus. Eu nem morava nas residências! Foi fantástico. Eu também tenho uma música que foi escrita sobre mim e que as pessoas cantam sempre que jantamos juntos ou saímos. Podem pensar que é idiota, mas eu gosto realmente disso. Começas a construir ligações com a cidade e as suas pessoas. Eu sou parte de algo maior que eu aqui, isso faz-me sentir especial. Mas também nunca esqueço que cheguei onde estou hoje, em grande parte, devido à força e apoio de meus pais, familiares e amigos. E ainda sinto falta deles todos os dias.

Aveiro é uma cidade muito bonita e encantadora. E as pessoas aqui são tão afetuosas que me lembram Luanda, a minha cidade natal. Conheci pessoas que vejo mais como família do que apenas como amigos. Vivi experiências únicas e sou acolhido em todos os lugares a que vou. Estes têm sido os melhores anos da minha vida.

“A Completa Novata”

– uma história de Márcia

Ser imigrante nunca foi para mim. Alguns podem dizer que esta é uma afirmação ousada, outros que é uma afirmação ingénua. Suspeito que tenha a ver com a minha visão de principiante sempre em mudança. E podem, sim, chamar-me de principiante, mas não no que toca à mudança. Toda a minha vida tem sido à volta de mudança e adaptação. Tenho estado sempre em movimento e continuamente a descobrir novos lugares para chamar de casa desde pequena. Escolhi viver em Portugal porque me faz sentir em casa.

Quando decidi sair o meu país, temi que as minhas hipóteses de achar emprego fossem baixas, visto já não ser nova. Apesar disso, aqui estou eu, a fazer um doutoramento na Universidade de Aveiro. Estou a fazer o que mais gosto, aprender e ensinar.

Provavelmente já sabem que Portugal e o Brasil partilham a mesma língua. Falamos todos português, por isso é fácil nos perceber-mos uns aos outros, certo? Bem, eu pensei o mesmo. Foi só quando cheguei aqui que me apercebi das diferenças na comunicação. Deparei-me com imensas situações em que estávamos todos a falar português, mas a nossa maneira de nos exprimir era completamente diferente. Isto tem sido um grande desafio para mim.

Desde pequena que o meu querido pai me disse para olhar para o mundo como se este fosse um caleidoscópio de perspetivas, pelo que estou habituada a não ver só uma verdade e a estar ciente do rico e complexo mundo da interpretação. É assim que encaro a minha experiência em Portugal, sem preconceitos ou opiniões erróneas sobre o país e as suas gentes. Decidi abrir o meu coração e a minha mente e deixar a vida tomar o seu rumo.

Nunca me apeguei muito a lugares, só a pessoas. Estas transformam a paisagem em experiências multi-sensoriais. São as minhas raízes e, por isso, sinto-me sempre numa cidadã global, experienciando tudo como se pela primeira vez. Não sou uma imigrante, sou uma completa novata a olhar para uma tela branca, procurando expressar a linguagem do amor.

“Nostalgia da Espuma do Mar”

– uma história de Mariana

Naquele precioso momento em que abri o meu bem-viajado guarda-chuva, este foi perdido. Aveiro, precisamos mesmo de chuva e vento ao mesmo tempo? Aparentemente, sim. Foi o meu primeiro dia aqui. Eu até tirei uma fotografia para capturar a minha cara feliz cheia de entusiasmo de primeiro dia com esta abençoada receção chuvosa e ventosa! No entanto, a arte urbana mesmo fora da estação de comboios deslumbrou-me o suficiente para ficar tudo melhor.

O meu marido e eu procurávamos um sítio novo para viver desde que voltámos da Califórnia. A planear tudo com antecedência, sabes? Na verdade, estávamos a considerar a Austrália, Nova Zelândia ou outro país de língua inglesa.

Foi enquanto viajávamos pela Europa que acabámos por conhecer Lisboa. De alguma forma, parecia-se um pouco com a Bahia, a nossa casa. Algumas praças e ruas tinham o mesmo nome, e também consegues encontrar semelhanças na estética urbana, por causa da conexão entre Portugal e o Brasil. Começou a parecer certo. Depois, ligaram-me com uma proposta para um doutoramento na Universidade de Aveiro, precisamente na área de estudo do meu interesse. Adicionalmente, Aveiro tem o meu acompanhante de longa-data, o mar, extremamente perto. O meu marido e eu adoramos surfar, então só poderíamos escolher uma cidade com ondas espetaculares.

Imensas pessoas aconselharam-nos a não tomar um risco destes, “Ó, mas por que razão vão abandonar o vosso país quando estão tão bem estabelecidos cá?”, “Não vás, já tens cá os teus amigos, o teu trabalho, as tuas raízes aqui!”. Nós queríamos sair da nossa zona de conforto, queríamos crescimento pessoal e novos desafios profissionais.

Sem dúvida, a parte mais difícil? Deixar a minha família. Eu vim sozinha, o meu marido teve de ficar no Brasil a tratar de burocracias, para um sítio onde não conhecia ninguém. Claro, eu falava e interagia com pessoas a toda a hora, mas no final do dia, chegava a casa sozinha. Eventualmente, encontrei um grupo de igreja que me acolheu. Trataram-me como família, o que me ajudou a sentir parte da comunidade.

Quando vais viver para um país novo, tens de reconstruir e reorganizar a tua vida outra vez. Desde as necessidades mais básicas, como onde é que posso encontrar os produtos mais baratos ou o que será que devo vestir para este frio, até emprego e necessidades financeiras. Precisas de aprender como os sistemas de saúde e de educação funcionam.

Sinto falta do cheiro do mar. Gosto de ir à Costa Nova e à Barra, mas não é o mesmo. Na Bahia, podes ficar na praia até o final do dia, a relaxar na toalha de praia ou a nadar nas águas quentes. Tenho saudades disso. Aqui, tens um momento de 5 minutos de água gelada e vento e areia a voar por todo o lado. Mas, se deixas o teu país carregando as tuas memórias como um peso, se tu as vives como um lembrete das coisas que deixaste para trás, nunca conseguirás aproveitar a tua nova vida ao máximo.

Passo a passo, tu constróis um novo tu num novo país. Os teus hábitos mudam. Eu costumava comer tapioca constantemente, mas é mais difícil de encontrar aqui, por isso guardo-a para ocasiões especiais. Costumava vestir vestidos longos, mas agora eu gravito mais para roupa que me mantém quente. Muitos aspetos da tua vida têm de mudar. Tu adaptas-te. Para mim, a coisa mais importante é vir com uma mente aberta. Ainda estou a descobrir as nuances culturais, mas eu já adoro Aveiro.

“Vagueando sem Vergonha”

– uma história de Mina

Olá, sou a Mina e... sou oriunda do Iraque.

Sim, adivinhaste, palmeiras cheias de tâmaras (a fruta), o antigo local de nascimento da escrita, Saddam Hussein, as guerras...

Mina, em português, tanto pode significar mina de ouro ou mina mina. Como aquelas que explodem. Percebeste a piada, certo?

Nasci no Iraque, vivi alguns anos na Jordânia e depois vim para Aveiro, com treze (geralmente chamada de “idade da parvoíce”). Vivo em Aveiro há onze anos e, meu deus, que experiência de mudar uma vida tem sido.

Ainda me lembro do primeiro dia de escola. Saltei para uma nova turma, num país novo e apenas sabia dizer “Bom dia” e “Obrigada”. Os meus colegas receberam-me calorosamente em inglês, fizeram-me perguntas de vez em quando e eu senti-me agradecida por eles serem tão queridos comigo. No entanto, não nos tornamos amigos.

Os anos seguintes da minha adolescência foram difíceis. E é suposto ser assim, certo? Sentes-te incompreendido e anseias por proximidade, mas ainda assim afastas as pessoas. Principalmente quando aprender a língua tinha os seus altos e baixos e comunicar com as pessoas não era fácil para mim.

Eventualmente, a catástrofe passou e, lentamente, fui renascendo. A cidade estava diferente aos meus olhos. Há árvores por todo o lado, o que eu adoro, o quente brilhar do sol e o vento brincalhão que dança com os teus cabelos. Há sorrisos quentes e assimétricos em pessoas com corações assimétricos, tal como eu. Sorrimos uns para os outros e dizemos “Bom dia”, “Boa tarde”, “Como estás?”.

Eventualmente, encontrei os meus amigos. Alguns deles estão agora noutras cidades e a maior parte de nós não sabe onde estará ou para onde irá no futuro, mas está tudo bem.

Hoje posso dizer que adoro Aveiro, com honestidade e sem vergonha. Amo o parque. É aquele refúgio onde podes caminhar descalço sobre a relva, sentir suavemente o cheiro das flores no ar, admirar a beleza dos reflexos prateados da água do lago e apenas... ser. Os teus olhos e o teu coração vão saborear a preciosidade, se os deixares, claro. É como se fosse possível haver paz na terra.

As pessoas perguntam-me sempre: “és mais iraquiana ou portuguesa?”. Eu digo que não sei. Ainda tenho o sangue quente, as especiarias Árabes e um bocadinho de dança do ventre nas veias. Mas não concordo com a opressão no Médio Oriente. Portanto, respondo “ambos”.

Aveiro é a minha casa agora. É onde me sinto segura. É onde tenho os meus amigos, a minha família, as pessoas que amo. Mas ainda continuo a vaguear e a questionar onde me irá a vida levar.

“Encontrados em Estradas Paralelas”

– uma história de Nastya

A vida nem sempre corre como planeamos. Eu tinha a carreira dos meus sonhos, amava a cidade onde morava, tinha imensos amigos, uma vida cultural e social, ganhava o suficiente para viver como queria e viajava muito. No entanto, devido a reviravoltas imprevisíveis da vida, acabei por ficar em Aveiro.

Nunca sonhei viver no estrangeiro, adoro a minha terra natal, o que explica porque é que, quando inicialmente cheguei para um Serviço de Voluntariado Europeu, não vi Portugal como a minha casa, nem Aveiro como a minha cidade. Mas depois de 10 anos aqui, desenvolvi uma ligação especial com Portugal. Estudei aqui, comecei aqui uma família e até fui co-fundadora da Agora Aveiro. Portugal tornou-se a minha segunda terra natal.

Acho que os Portugueses têm muitas semelhanças com os Ucranianos, ainda assim, as minhas raízes continuam as mesmas. Ainda sinto saudades de casa. Tenho uma família e duas crianças aqui, mas Kyiv é o sítio onde me sinto como eu mesma novamente, embora a vida lá de momento não esteja fácil. Adoraria poder viver em ambos, Ucrânia e Portugal. É difícil dizer aquilo de que sinto falta exatamente. Provavelmente do “espírito” e atmosfera da cidade, as pessoas e a vida cultural, conversas profundas, a rotina atarefada e a minha família.

A única forma que encontrei de combater as saudades é de voltar lá com mais frequência, convidar os meus pais quantas vezes eu puder e falar ucraniano com os meus filhos. Leio literatura ucraniana, vejo filmes e ouço música, a guerra recente deu lugar a tantos livros incríveis, autores fantásticos e cineastas.

Senti-me acolhida em Aveiro desde o início, os Portugueses são uma das melhores pessoas para conhecer. Muito carinhosas e respeitadoras. Senti isso especialmente quando tive de fazer uma apresentação em frente a crianças portuguesas na altura em que eu mal conseguia pronunciar uma palavra na língua delas. As crianças foram muito gentis e curiosas quanto à minha personalidade. Mesmo quando os aveirenses não te percebem, mesmo assim fazem o seu melhor para te ajudar.

Sinto-me como uma pessoa local em Aveiro. Conheço as estradas todas, muitos atalhos, restaurantes locais e outros sítios onde apenas os Portugueses vão. Falo português e consigo facilmente tratar de qualquer problema sem a ajuda de um cidadão da cidade e tenho os meus próprios amigos com quem ter daquelas “conversas profundas”. De momento, sou igualmente uma cidadã de ambas as cidades. Promovo Aveiro entre os meus amigos com tanto carinho como o faço para Kylv. Por isso, sim, definitivamente tenho um sitio especial para Aveiro no meu coração.

“Um Coração sem Descanso”

– uma história de Nataša

Hoje, onze anos depois de me ter mudado para Aveiro, sinto-me mais local aqui do que na cidade onde nasci, no país que era, na altura chamado Jugoslávia.

Testemunhei algumas guerras e outros infortúnios no meu país, mas nunca pensei que viveria no estrangeiro durante muito tempo, principalmente porque adorava o meu trabalho, vivia bem, viajava muito e era feliz.

Mudei-me para Portugal porque quis e não porque tive de o fazer. E pelo melhor motivo possível, encontrei o meu amor aqui.

Para mim, para integrar completamente a vida da cidade, nunca foi suficiente apenas “existir” aqui. Senti a necessidade de me tornar um membro ativo da comunidade e percebi que, na verdade, não havia nenhuma instituição onde pudesse realizar plenamente esse desejo. Foi por esse motivo que, juntamente com alguns amigos, co-fundei a Agora Aveiro, em 2010.

Trabalhar na Agora Aveiro deu-me oportunidade não só de promover valores importantes e desenvolver projetos significativos, mas também de encontrar pessoas incríveis e ficar a conhecer muito bem a minha nova cidade, não apenas superficialmente. Também me tem dado muitas oportunidades para viajar e eu adoro isso, mas sabe sempre bem voltar a casa.

Há sete anos, tornei-me oficialmente “Portuguesa” quando obtive o meu passaporte Português. A verdade é que não me sinto particularmente portuguesa, mas também não me sinto sérvia. Há coisas que adoro em ambos os locais, mas o sentimento de patriotismo é algo que perdi no momento em que percebi a facilidade com que um país pode mudar o seu nome, as suas fronteiras, a bandeira ou a ideologia. Sinto-me uma cidadã global e uma local em vários locais pela Europa.

Adoro que Aveiro tenha várias coisas como festivais e eventos culturais a acontecer constantemente. Na Sérvia, uma cidade do tamanho de Aveiro é, geralmente, uma cidade fantasma, sem jovens, sem negócios inovadores e com poucos eventos culturais. Além disso, amo o oceano. Mesmo depois de uma década, continua a fascinar-me. Quando vou à Costa Nova, no momento em que piso a areia, sinto-me como se fosse a primeira vez que o vi, em 2007.

Aveiro é agora a minha cidade e, mesmo que não fique aqui para sempre, irá sempre ser uma marca significativa no meu mapa pessoal. Embora às vezes sinta falta da energia das grandes cidades, consigo lidar com isso viajando para Belgrado e outras capitais com bastante frequência. E aí, depois de alguns dias ou semanas de uma confusão hipnotizante é realmente bom voltar a este aconchegante porto de abrigo.

“Uma Casa Longe de Casa”

– uma história de Valentina

Sempre soube que queria viajar e experienciar a vida noutros países, e assim que eu tivesse a oportunidade, estudaria fora de Itália.

Eu casei com um homem muito aberto à mudança. O nosso país não nos oferecia muito em termos de estabilidade económica, então ambos queríamos ir embora. Propuseram-lhe uma posição na Universidade como músico acompanhante, e eu vim com ele. Acho que posso afirmar que somos migrantes económicos, mas no final do dia, foi amor que me trouxe para Aveiro. Mesmo tendo estudado Literatura Lusófona e Hispano-americana e Tradução Intercultural em Roma, nunca tinha ouvido falar de Aveiro. Hoje, é uma cidade que aprendi a conhecer e a apreciar.

Não foi muito difícil chegar aqui, porque sou uma cidadã da União Europeia, não tive de passar por muita burocracia. Não tenho recebido nenhum comentário negativo por ser italiana. Pelo contrário, parece que toda a gente gosta de Itália, mais que os próprios italianos. Toda a gente me pergunta se eu gosto de viver aqui e se eu prefiro Portugal a Itália. Apesar disso, não minto, foi difícil.

O primeiro ano foi duro. As pessoas locais são ótimas, mas existe algo único em não ser de cá que apenas os não locais experienciam e percebem verdadeiramente. Os estrangeiros acabam por se ajudar imenso mutuamente, talvez algumas iniciativas para nos conhecermos e partilharmos experiências tornaria isto mais fácil. O meu marido viveu aqui sozinho durante alguns meses, portanto tínhamos de encontrar um sítio onde poderíamos todos morar. Passámos imenso tempo à procura. Eu tinha um filho de 11 meses para cuidar, não tinha outra família nem amigos. Tudo isto fez com que pudesse facilmente ver Aveiro como um sítio deprimente.

Comprámos duas bicicletas e usámo-las para explorar a vizinhança. É uma maneira ótima para apreciar as paisagens, desde a universidade até aos edifícios históricos. Usamo-las para ir a todo o lado.

As crises fazem parte da vida de toda a gente, existem sempre desafios e obstáculos para ultrapassar. Dito isto, tive um acidente de bicicleta e parti o pulso. Algo que me trouxe tanta alegria foi também a razão por já não conseguir fazer as coisas que fazia com tanta facilidade antes. Isso deixou-me triste e deprimida. Mas ultrapassa-se.

Decidi continuar os meus estudos musicais seguindo um mestrado em música. Foi na Universidade de Aveiro que consegui fazer amigos. Atualmente, dou lá aulas de italiano enquanto termino a minha pós-graduação em Práticas Artísticas e de Comunidade. Eu estudava medicina antes de me virar para as artes. O meu pai estava muito doente, o que por si só é algo que pesa bastante, mas ter de encarar isso também na escola tornou-se demasiado. Precisava de uma pausa. O tempo passou, mas a minha curiosidade nunca desapareceu realmente, portanto estou a seguir um mestrado em Biologia Aplicada, onde posso explorar e combinar arte e ciência.

Tenho saudades da minha mãe. Gostaria que o meu filho pudesse passar tempo com ela. Também sinto falta dos meus amigos próximos e os laboratórios teatrais de que costumava fazer parte. Eu ainda volto a Itália para atuar com alguns deles, mas não é bem o mesmo. Mas eu tenho os amigos que fiz aqui e os sítios que se tornarem parte da minha vida diária. A família é a minha casa. O meu marido e o meu filho estão cá, por isso Aveiro é a minha casa.

“Para Além das Palavras”

– uma história de Valéria

Deixar o México foi uma experiência agridoce. Eu sabia que era o fim de uma época, mas ao mesmo tempo, não conseguia conceber completamente a enorme decisão que eu estava a tomar. Ainda assim, partir foi uma decisão minha. Felizmente, não fugia de nada. Estava excitada com as experiências e aventuras que me esperavam.

Não sou uma pessoa estática, não gosto de ficar num sítio muito tempo. Vivi em Leiria durante dois anos, mas só em 2016, quando vim para Aveiro, é que senti realmente que pertencia. Apaixonei-me imediatamente por Aveiro.

Subestimei o quão desafiante seria. Por ter uma boa noção da língua, visto que falo nativamente espanhol, pensei que seria fácil integrar-me na comunidade quando cheguei a Portugal.

No início, tinha dificuldade em perceber os cumprimentos. No México, damos um beijo e dizemos olá, outro beijo e adeus, simples! Em Portugal, dois beijos e um olá para toda a gente, mas nem sempre; dois beijos para dizer adeus, mas apenas em algumas situações. Tão confuso! Agora sinto-me mais à vontade, tudo flui melhor.

O meu marido tentou integrar-me na sua família, mas eu queria um grupo só meu. Foi só quando encontrei a SPEAK* que senti ter encontrado um lugar para mim neste novo país. Conheci pessoas que estavam na mesma situação que eu, a passar pelo mesmo processo de adaptação, pelo que partilhamos as nossas incertezas e medos. Sei agora a importância deste tipo de projetos. Foi por isso que, quando cheguei a Aveiro, decidi trazer comigo o programa e fundei a SPEAK Aveiro. Quero ajudar os que estão a passar pelo que eu passei.

Embora pequena, Aveiro é uma cidade multicultural. Uma das razões pela qual a adoro é porque há uma panóplia de nacionalidades a partilhar o mesmo local. Algumas estão apenas de passagem, outras por curtos períodos, mas todas contribuem para tornar Aveiro um sítio melhor. Gosto do facto de me sentir nem mais nem menos bem-vinda que os outros cidadãos. Acredito que ser imigrante aqui é mais fácil. As pessoas são amigáveis e estão tão acostumadas a estrangeiros que a sua presença já faz parte do dia-a-dia.

Na minha opinião, os aveirenses são afáveis e pacientes com os recém-chegados, ainda que não completamente dispostos a sair da sua zona de conforto. Tenta perceber o que os estrangeiros querem partilhar, mostra curiosidade para com a aventura de outrem e aprende com as suas culturas. Estes pequenos passos podem ter um impacto significativo nos que estão longe de casa.

De vez em quando, tenho desejos de comida mexicana e do clima maravilhoso, mas mais do que isso tenho saudades das pessoas do meu coração. Sinto falta de estar junto das pessoas que me conheceram a vida toda, aquelas com quem podes ser tu sem ter de dar explicações. Apesar da distância, mantenho uma relação de proximidade com as pessoas que adoro e sei que quando as voltar a encontrar, sentirei que não passou tempo algum. Nunca será o mesmo que estar lá, mas torna as ocasiões em que podemos estar cara-a-cara muito mais especiais.

Parte de mim teme que até me possa perder um pouco quando voltar à minha cidade no México, que é bem maior do que Aveiro. Acredito que vou conhecer Aveiro ainda melhor do que conheço Querétaro. Faço visitas guiadas da cidade que começam na Ponto do Botirão ou “Ponte do Laço”, se tivesse de escolher, diria que esse é o meu lugar favorito. Foi onde comecei a conhecer a cidade melhor. E quanto mais conheço, mais adoro Aveiro. Sinto-me 100% como uma local em Aveiro. Estou tão feliz por reconhecer isso.

Rosa Gadanho

Professora

Centro Escolar de Santiago

O saber transforma o lugar

Rosa não se considera um herói, mas admite que conheceu vários. “Com alguns deles aprendi muito”.

Rosa Gadanho, recentemente aposentada, foi durante mais de quatro décadas professora. Esteve ainda envolvida na criação das bibliotecas escolares no Município de Aveiro e foi bombeira, em tempos onde só homens exerciam a atividade. “Não queremos cá saias!”, foi a mentalidade que enfrentou e superou. Atualmente, Rosa faz voluntariado no Estabelecimento Prisional de Aveiro. Sempre preocupada com problemas sociais na comunidade, realça “estamos cá para fazer coisas!”.

Começou a sua carreira na educação especial, área em que trabalhou durante 36 anos. Acompanhou de perto a transição das crianças das CERCI’s (Cooperativa para a Educação, Reabilitação, Capacitação e Inclusão) para as escolas regulares. Rosa defende que “o lugar dos miúdos é ao pé de outros miúdos. A forma das pessoas se aceitarem umas às outras é viverem em comunidade”. Foi árduo, as escolas não estavam preparadas para estas crianças. “Algumas ficavam fechadas, sozinhas e isoladas enquanto os pais trabalhavam. Estamos melhor, mas ainda nos falta muito (...) ainda estamos muito longe de um lugar digno para elas”.

Os verdadeiros heróis são aqueles que,
apesar das dificuldades,
do desprezo e do preconceito,
conseguem levantar a cabeça
e ter uma vida digna

Foi na Escola Básica de Santiago que durante mais tempo trabalhou e se dedicou. “Foi uma batalha”, relembra. Uma escola, criada para responder às necessidades de um bairro “problemático” aos olhos de muitos. Um bairro preenchido com famílias com dificuldades, económicas e não só. “No início, as crianças do bairro foram frequentar a Escola da Glória e o impacto foi muito perturbador. Então os poderes instituídos juntaram-se e rapidamente criaram a Escola de Santiago. Toda a gente nos perguntava “porque querem ir para essa escola?”.” A luta contra o estigma e a imagem negativa atribuída ao estabelecimento foi algo que se mostrou frutífero. A criação do jardim de infância e da biblioteca, o foco nas questões ambientais e o esforço coletivo, ajudaram a fortalecer a ligação entre a escola e as famílias. Hoje, a Escola de Santiago nem consegue dar resposta a tanta procura.

E o que é um herói aos olhos de quem já viu muitos? “Para mim, os verdadeiros heróis são todos aqueles que, apesar das dificuldades, do desprezo e do preconceito, conseguem levantar a cabeça e ter uma vida digna. É muito difícil.

Rosa guarda consigo imensos momentos marcantes ao longo de tantos anos de trabalho. Relembra episódios atrozes que ninguém espera confrontar, mas foi nesses momentos que sentiu as “sinergias da comunidade” a intervir. “Nunca vi tanta gente a tentar encontrar resposta sem comprometer as crianças”, afirma acerca de um desses episódios.

Manuel Barbosa

Chefe dos Bombeiros

Bombeiros Velhos de Aveiro

A chama que não se extingue

Manuel Barbosa demonstra um grande dever cívico. Considera que ao ajudar qualquer pessoa, está apenas a fazer o que lhe compete. “Quando uma pessoa se coloca em risco para ajudar o outro, sem ter conhecimentos ou meios, será sempre um herói”.

Manuel Barbosa é Chefe dos Bombeiros “Velhos” de Aveiro desde 2000. Tendo começado o seu percurso como bombeiro em maio de 1979, completa 41 anos de serviço. “Desde que comecei a exercer a função, verifiquei uma grande evolução nas condições [do quartel, equipamento e serviços]”.

Como Chefe, Manuel começa o seu dia a orientar a equipa, garantindo que os serviços não se acumulam. “Temos também a prestação de socorro que tem que ser gerida. Tenho que garantir que não há nenhum congestionamento nestes serviços, seja de pessoal, equipamento ou tempo de resposta”.

Quando uma pessoa
se coloca em risco para ajudar o outro,
sem ter conhecimentos ou meios,
será sempre um herói

Ao longo dos muitos anos de missão, já passou por diversas ocorrências, desde incêndios a prestação de primeiros socorros. “Nunca ninguém está completamente preparado para isso”. De modo a se proteger e poder prestar auxílio, teve de aprender a não se apegar muito a uma situação, dado que “logo a seguir vem outra”. “Não é de todo fácil. O que mais me afeta é chegar ao local da ocorrência e haver crianças. É a parte mais emocional para qualquer bombeiro, porque as crianças nunca têm culpa. Muitos de nós somos mães, pais, avós e torna-se sempre algo emocional”.

Até hoje, o episódio que mais o marcou foi o incêndio florestal, de 1986, em Águeda. “Começámos a operação por fazer um briefing sobre o modo como iríamos proceder e dividimo-nos em grupos. Infelizmente, o incêndio cercou alguns de nós.... Perdemos 13 bombeiros. O fogo foi mais rápido.” Quando conseguiram controlar o fogo e cessar o mesmo, “foi complicado chegar ao local e encontrar os corpos carbonizados de colegas com quem tínhamos acabado de estar a trabalhar lado a lado. Fica sempre aquele sentimento de que poderia ter sido qualquer um de nós. Perante o fogo o homem é um ser frágil”.

Apesar de todas as advertências, momentos complicados e horas longas que a atividade de bombeiro acarreta, o Chefe Barbosa não deixa o quartel tão facilmente. A sua filha e genro são também bombeiros. O sentido de camaradagem e espírito de equipa está fortemente enraizado. “É como uma família!”.

Margarida Gonçalves

Psicóloga

Unidade Clínica da Borralha

Ler as entrelinhas do silêncio

Para muitos, a ideia fantasiosa de um herói é a daquela pessoa que consegue fazer tudo e mais alguma coisa. Porém, Margarida Gonçalves pensa de outra forma. “Um herói, na vida real, não deve ser quem faz tudo, mas quem está presente naquilo que faz, com humildade, gratidão e compaixão”.

Margarida é psicóloga, com bastante experiência no contexto comunitário, social e com idosos. Atualmente, trabalha como psicóloga clínica, não perdendo, no entanto, o contacto com o ambiente social da psicologia, área que lhe interessa desde os tempos de faculdade. Afirma que o seu objetivo é “trazer a psicologia à rua, à comunidade”. Psicologia “sem estigmas e sem preconceitos, que tanto existem ainda hoje”, lamenta.

Só quem é louco, é que vai para o psicólogo”, continua a ser um dos principais preconceitos existentes. A desvalorização da doença mental e a dificuldade em pedir ajuda são fatores que dificultam o trabalho dos profissionais. A forma como a sociedade analisa e se comporta é também um fator determinante para a evolução dos comportamentos, “todos nós somos agentes de mudança”, afirma.

Todos nós temos algo
de novo a aprender com
todas as pessoas com
quem nos cruzamos

Margarida acredita, “todos nós temos algo de novo a aprender com todas as pessoas com quem nos cruzamos”. Coleciona na memória valiosas lições, fruto da experiência e do contacto, da ligação e da empatia. “Nem todos têm de sentir o que estamos a sentir naquele momento, naquele contexto”, aprendeu num dos episódios mais marcantes do início da sua carreira. Era Natal no lar, época em que todos se reúnem, família e amigos, e o lar se enche de animação. Porém, nem todos se sentiam assim. Margarida recorda como se aproximou de um dos idosos, sozinho e desanimado, “doutora, a festa é exterior, não interior”. Para o homem, era mais um dia, Natal ou não, em que não tinha a família em seu redor. “O meu coração tem muita tristeza”, continuou ele, momentos antes de lhe virem as lágrimas ao olhos. “Foi um banho de humildade. É necessário sermos humildes, gratos, olhar para a pessoa no seu todo e termos compaixão”, algo que a psicóloga reconhece estar em falta na sociedade.

Porém, nem tudo corre como planeado e há casos em que não se consegue ajudar. Quem faz a mudança “é a própria pessoa e esta pode não querer mudar”. Aqui destaca a influência da sociedade, a crítica e os olhares. Ao início, Margarida sentia uma revolta interior, mas “a prioridade são as emoções da pessoa, dar espaço e ter noção que a mudança de comportamento não é imediata”. Mesmo não resultando como planeado, o importante é “chegar ao final do dia e pensar se fiz o melhor que podia fazer. Se a resposta for sim, ótimo. Se não, amanhã é outro dia”.

O que faz Margarida mais feliz? A resposta é simples. Conseguir “fazer ver à pessoa que pode ser muito mais do que aquilo que acha que é” e ao final do dia, saber que “naquele momento, naquela situação, eu estive lá”.

João Henriques

Animador

Centro Local de Apoio a Migrantes

Ouvir contra a indiferença

Esta história, como o próprio fez questão de realçar, não é só sobre João Henriques, Assistente Social e Animador no Centro Local de Apoio à Integração de Migrantes (CLAIM), mas sobre todos aqueles que ajuda diariamente e aos quais quer dar voz.

Há três anos e meio que João trabalha no CLAIM, é aqui que todos os dias presta serviço a migrantes e refugiados. Com vista à sua integração e autonomização no país, presta atendimentos, apoio social e promove atividades culturais. “A minha abordagem no dia-a-dia é, acima de tudo, a de escutar”, explica sobre o seu trabalho. Acredita que só assim poderá realmente colmatar as necessidades daqueles que procuram o seu apoio. Sobre o que o levou a escolher a profissão, afirma não saber explicar, talvez tenha sido por influência da mãe e irmã, também elas assistentes sociais, “quando tenho consciência de mim, já era o que eu queria ser”, confessa.

Relatos de vidas turbulentas não faltam a quem lhe recorre, pessoas que parecem “por vezes invisíveis”, que, por não estarem integradas na comunidade, acabam por ter dificuldade no acesso aos serviços de saúde, educação e cultura. Pessoas que “precisam apenas de facilitadores que os possam apoiar na concretização dos seus objetivos”. É para estas que João trabalha, escutando os seus problemas e celebrando as suas conquistas. Por estar tão por dentro das dificuldades que enfrentam, sente a responsabilidade de lhes dar visibilidade, “isto não é sobre nós, é sobre as pessoas”.

Enquanto não houver uma maior
abertura por parte da comunidade
para integrar essas pessoas,
estamos a promover a exclusão social

As dificuldades não se sentem só no acesso a serviços básicos. Também se ouvem nas conversas racistas e xenófobas que, embora desiludindo João, permitem-lhe ter uma melhor compreensão sobre a sociedade para que nesta consiga intervir. “Enquanto não houver uma maior abertura por parte da comunidade para integrar essas pessoas, estamos a promover a exclusão social”. Assim, a história de João é a de um aveirense que quer dar protagonismo a todas as pessoas que, de algum modo, sofrem discriminação, tendo sempre plena consciência de que “não é através de um clique que as coisas mudam. É um trabalho de continuidade”.

João afirma não ser um herói, “parece-me um pouco exagerado”. Mas os heróis não usam capas nem têm superpoderes, são pessoas que na sua humildade nem se apercebem que para todos aqueles a quem dão a mão, não têm outro nome senão esse.

Ondina Pereira

Enfermeira

Centro Hospitalar do Baixo Vouga

Um coração que bate sem preconceitos

Quando questionada sobre o que é um herói, Ondina enaltece os “heróis das coisas pequenas”. Se cada um fizer a sua parte, se cumprir com excelência a sua missão, então “cada um é um pequeno herói naquilo que faz”.

Enfermeira há 25 anos, Ondina Pereira trabalha no Departamento de Psiquiatria e Saúde Mental (DPSM) do Centro Hospitalar do Baixo Vouga. Apesar de ter estado alguns anos no serviço de ortopedia, há 10 anos que integra a Unidade de Intervenção Comunitária, um dos serviços do DPSM. Aqui faz parte de uma equipa multidisciplinar que realiza visitas domiciliárias e presta apoio a utentes referenciados pela Unidade Hospitalar. “É um cuidado de proximidade”, refere sobre o seu trabalho, onde faz o acompanhamento e reabilitação de doentes mentais, visando a sua autonomia e integração na comunidade.

Queria fazer algo que me permitisse estar perto das pessoas” explica sobre o que a levou a escolher enfermagem. O gosto por esta profissão fez com que nunca se tenha arrependido ou duvidado da carreira que escolheu e afirma ser “enfermeira por vocação, na psiquiatria por paixão”. Contudo, não é apenas o interesse por esta área que faz de Ondina uma boa profissional, mas também o facto de valorizar cada utente como uma pessoa individual que vai para além do rótulo da doença que enfrenta. “O cuidado de tratar os outros como pessoas, independentemente de terem uma doença mental, seja ela qual for” é o mais importante para a enfermeira. Neste ponto, denuncia o estigma ainda existente na sociedade perante os doentes mentais e psiquiátricos, reforçando a necessidade da sua desmistificação. Defende que todos “vivemos numa balança entre a saúde e a doença mental”, e apesar de “encontrarmos mecanismos de defesa”, todos podem ter os seus momentos de desequilíbrio, pois “a doença mental é de todos”.

O cuidado de tratar
os outros como pessoas,
independentemente de
terem uma doença mental,
seja ela qual for

Por trabalhar e viver em Aveiro, é natural deparar-se com alguns destes antigos utentes na rua, depois de regressarem à vida em comunidade. É nestes encontros ocasionais e despropositados que, por vezes, se depara com utentes que se encontram instáveis. É sua responsabilidade sinalizá-los e encaminhá-los novamente para os serviços de psiquiatria. “Às vezes, a nossa missão como enfermeiros ultrapassa as paredes do hospital”.

Outra ideia que pretende desmontar é a imagem de uma “psiquiatria agressiva” com utentes violentos. Afirma que “a nossa maior arma é a comunicação”, realçando a importância de tratar com dignidade cada utente, de lhes prestar atenção, de os compreender e, com isso, acalmá-los. Para o conseguir fazer, não se deixa influenciar pela opinião que outros têm sobre os seus pacientes, independentemente de os considerarem violentos ou agressivos. “Somos nós que estamos ali naquele momento, não são os outros, somos nós”.

Rui Figueiredo

Agente Principal

Polícia de Segurança Pública

A serenidade de uma luz de presença

Para Rui Figueiredo, “um herói é alguém que faz um serviço para o qual não lhe pagam. Que cumpre a sua missão porque tem amor à causa”. Fazendo o seu trabalho por gosto, Rui certamente já ganhou o título de “Herói” para muitos daqueles que o encontraram pelo caminho.

Rui Figueiredo é polícia desde 1998. Iniciou a sua carreira em Lisboa, tendo sido depois transferido para Espinho, onde começou o percurso pelo qual se iria diferenciar. Aqui, fazia o acompanhamento de idosos, trabalho que continuou quando se mudou para a esquadra de Aveiro. Quando iniciou a sua função, os números de acompanhamento eram escassos, com apenas 4 casos sinalizados. Atualmente, o grupo aumentou para 90, o que demonstra o impacto que Rui teve.

Com uma apetência e um talento natural para ajudar o próximo, Rui lida também com vítimas de violência doméstica. Dada a fragilidade dos grupos de atuação, a preparação emocional é de extrema importância. Rui confidencia: “Tenho que ter bastante controlo emocional. Nunca sabemos como vai ser o nosso dia.” O papel de um polícia é o de tentar amenizar as situações, “em casos de violência doméstica somos como que o controlo do agressor e a salvação da vítima”.

Todos aqueles que
salvam a vida de alguém,
vão ser sempre um herói
para aquela pessoa

Após 22 anos de serviço com grupos de saúde mental delicada, Rui deparou-se com inúmeras situações que o marcaram. No entanto, destaca um episódio de uma criança vítima de violência doméstica: “A menina vivia com a mãe numa casa sem condições. Dada a situação de emergência, a criança foi retirada e encaminhada para a esquadra.” Dali a criança sairia para uma instituição. Contudo, a mãe advertiu a menina de que a assistente social a levaria para um lugar horrendo. Perante o medo que a menina sentia, Rui explica, “fiquei com ela até que o transporte chegasse”. Rui teve que se ausentar por momentos, mas ela recusou-se a ir embora sem se despedir dele. “Fez-me um desenho, que ainda hoje guardo. Abraçou-se a mim quando se foi embora. Fui para casa o caminho todo a pensar nisso.

Apesar de nem sempre ser fácil e de muitas destas ocorrências acabarem por ficar consigo, Rui Figueiredo não trocaria o seu trabalho. Quer seja zelar pelos outros, encontrar um idoso que a família não sabe o paradeiro ou apoiar vítimas de violência doméstica, “o nosso trabalho é estar presente e intervir”.

Micaela Oliveira

Médica de Família

Extensão de Saúde de Oiã

O peso de um ombro amigo

No meio de uma crise pandémica, “médico” e “herói” são termos quase sinónimos. Apesar de concordar, Micaela Oliveira, médica de família, defende que “não é preciso ser médico para se ser um herói”. Para si, um herói é “alguém que consegue fazer a diferença na vida dos outros. Pessoas que, com gestos maiores ou menores, conseguem melhorar o dia de alguém”. Acredita que qualquer um pode ser um herói, “quer na sua profissão, quer com o vizinho do lado”, o importante é “perceber que alguém está a precisar de nós” e ajudar.

Com o seu dia a dia “virado do avesso”, Micaela refere as mudanças sentidas no trabalho, despoletadas pela pandemia. “Para além das consultas presenciais, temos também as consultas por telefone e email”. É ainda da sua responsabilidade o acompanhamento telefónico de doentes COVID-19, tanto confirmados como suspeitos. “O trabalho aumentou para o dobro”, explica a médica. A situação atual trouxe ainda outras mudanças no seu quotidiano a um nível mais emocional. Não acredita que “o trabalho acaba na porta do centro de saúde”, por isso, inevitavelmente, as emoções de um dia de trabalho permanecem no seu pensamento. Afirma que agora é mais difícil, “estamos continuamente em risco. Venho para casa a pensar: será que eu estou a contaminar a minha família?”.

Micaela refere existir ainda alguma disparidade de opiniões no que diz respeito ao trabalho dos médicos de família, nomeadamente no reconhecimento da importância desta especialidade. “Quem tem uma boa relação com o seu médico de família, reconhece a importância do nosso trabalho, mas infelizmente há ainda a perspetiva de que só os médicos do hospital é que resolvem os problemas”.

Temos de tudo, pais que quando
o filho nasce nos mandam fotografias
a dizer que correu tudo bem, e filhos a lamentar
“infelizmente o meu pai acabou de falecer”

Sobre o que a levou a escolher a sua especialidade, revela que procurava algo “generalista e abrangente”, no qual tivesse a oportunidade de contactar com crianças. Mas refere que a escolheu principalmente pelo facto de poder interagir com diferentes gerações de uma família e acompanhar a sua construção e crescimento. No entanto, existe ainda o outro lado, o dos idosos que começam a estar sozinhos. “Temos de tudo, pais que quando o filho nasce nos mandam fotografias a dizer que correu tudo bem, e filhos a lamentar “infelizmente o meu pai acabou de falecer”. É um trabalho de extremos”, conclui.

Apesar de acompanhar várias famílias, Micaela confidencia “não guardo uma família em especial, vou guardando histórias”.