• Desenvolvimento Sustentável
  • Erasmus+

O CES da Calina na Islândia

“Eu ri, chorei, perdi alguns hábitos e criei outros. Eu inspirei pessoas a serem loucas e juntei-me à loucura delas”

Tempo estimado de leitura: 5 minutos e 34 segundos

A Calina Porto, de Ílhavo, Aveiro, passou quatro meses na Islândia no Corpo Europeu de Solidariedade”, com a SEEDS Iceland. Pedimos-lhe para escrever um testemunho sobre a sua experiência e é este o resultado. Se tiveres interesse em ter uma experiência de voluntariado internacional, consulta a nossa página sobre o Erasmus+ e contacta-nos!

Eu sou a Calina e a minha experiência com a SEEDS Iceland começou quando eu tinha 23 anos e já vivia em Portugal. Deves estar a perguntar-te: “Porquê a Islândia?” Bem, tenho a dizer-te que não fui eu que escolhi a Islândia, a Islândia é que me escolheu!

Tudo começou porque eu estava à procura de projetos de voluntariado para participar. Sim, na natureza e relacionados com a educação, o ambiente, a cultura e a sustentabilidade. Mas não… não estava a optar por países frios e com dias muito curtos.

A questão é que, mesmo com todos os “contras” que tinha na minha cabeça, quando ouvi falar a respeito da SEEDS pela primeira vez, fiquei logo interessada em fazer parte da organização e… surpresa, não havia vagas disponíveis para que eu me integrasse no projeto. Um mês depois, a oportunidade apareceu e a equipa da SEEDS escolheu-me para ser voluntária durante quatro mágicos meses.

Eu acredito que isto aconteceu porque eu me abri para esta experiência. Eu sabia que grande parte dos dias seriam escuros e frios, que teria de partilhar o meu espaço com os outros, que a comida não teria o mesmo sabor e que as pessoas teriam hábitos e costumes diferentes dos meus. No entanto, eu quis desafiar-me a fazer isto.

Agora, posso dizer que tenho, sobretudo, boas recordações deste tempo que estive fora. Por exemplo, lembro-me de, no primeiro dia, a 31 de agosto, quando estava a ir para casa (Mikla House) pela primeira vez, ter ficado deslumbrada com a beleza dos cogumelos que encontrei no caminho. Não há palavras para descrever o quão encantadora e mística é a natureza na Islândia. Tudo tem uma cor, forma, tamanho e energia diferentes. E acredita, podes descobrir e aprender sobre poderosas e valiosas criações da natureza neste lugar!

A verdade é que a beleza da Islândia também estava na família SEEDS. O nosso apartamento estava sempre cheio de plantas a crescer em potes de Skyr colocados nas janelas, de vários sapatos na entrada, de chávenas de chá espalhadas pelos quartos, de baralhos de cartas na mesa e de post-its colados em todos os lados, até mesmo na porta da casa de banho. Isto explica muito como eram os outros catorze voluntários que viviam em Mikla Up: pessoas amáveis, atenciosas, apaixonadas pela natureza, carinhosas, criativas, comunicativas e que gostavam de se divertir.

Sim, éramos pessoas com origens diferentes, mas com o mesmo propósito: ter uma nova experiência e adquirir e partilhar conhecimentos, ajudando os outros a serem indivíduos mais conscientes sobre as questões ambientais.

Uma vantagem em tudo isto é que o nosso “objetivo” era a nossa “função”. A maioria dos voluntários eram “camp leaders”, tal como eu. A nossa principal tarefa era liderar os “workcamps” e “virtual camps”, desenvolvendo atividades, debates, jogos, workshops e apresentações, que facilitassem a troca cultural entre os participantes e que estimulassem o pensamento crítico dos mesmos, relativamente ao impacto das suas ações no planeta.

Mas a experiência com a SEEDS não se resumiu apenas a isto. Éramos constantemente encorajados a participar em atividades realizadas por outras organizações do país e a criar e desenvolver os nossos próprios projetos. A equipa responsável por nós estava sempre a apoiar-nos e a garantir que estávamos felizes com aquilo que estávamos a fazer.

“Felicidade” - esta palavra descreve muito bem o tempo que estive na Islândia. Mais uma vez, quero dizer que tenho muitas boas memórias de quando lá vivi. Mesmo com a situação pandémica que o mundo enfrenta e com todas as mudanças que isso provocou na forma como as coisas normalmente funcionam, é muito fácil para mim ver o lado positivo destes tempos loucos.

Tudo porque, durante estes tempos loucos, eu tornei-me parte de uma família incrível, aprendi, partilhei, conheci pessoas adoráveis, explorei lugares desconhecidos e descobri culturas diferentes. Eu ajudei quem precisava do meu apoio, vivi no meio de um jardim, quase voei com o vento e passei algum tempo numa ilha desabitada. Eu brinquei com a neve, vi a Aurora Boreal, fiz caminhadas na floresta, vi Nuvens Estratosféricas Polares, plantei árvores, senti um terremoto e gritei no topo de várias montanhas. Eu cozinhei, alimentei-me de comida saudável e saborosa e também provei coisas que não quero voltar a experimentar. Eu nadei na água fria e relaxei em piscinas termais. Eu dancei na rua, pintei no sofá e joguei às cartas até tarde da noite. Eu participei em festas e fiz música com pessoas que não faziam ideia de como fazê-la. Eu ri, chorei, perdi alguns hábitos e criei outros. Eu inspirei pessoas a serem loucas e juntei-me à loucura delas. Eu recebi boas massagens, dei abraços apertados e, no fim, eu percebi que me apaixonei.

Claro! Não seria possível sair da Islândia sem estar apaixonada. Apaixonada pela natureza, pela SEEDS Iceland e por todas as pessoas incríveis que eu conheci e deixei lá. Hoje, sinto-me abençoada por ter vivido meses inesquecíveis nesta ilha do fogo e do gelo. Foi uma experiência linda, enriquecedora, de muito crescimento e com fortes conexões, que valeu por todos os dias e momentos!

Com carinho,

Calina Porto

Agora Aveiro

05-02-2021