Debate: Porque não participamos (ainda) mais?
A iniciativa integrou o projeto internacional Acting4Democracy e teve como foco a participação cívica em Portugal. Mais de 30 pessoas participaram ativamente na conversa, para além de vários espectadores que passaram pelo espaço, pararam para ouvir e acabaram por se juntar ao debate.
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No último domingo de Fevereiro, o espaço da FNAC no Fórum de Aveiro transformou-se num pequeno laboratório de ideias sobre democracia e participação. Foi ali que a Agora Aveiro dinamizou um debate no formato fishbowl, reunindo cidadãos curiosos, representantes de organizações e juventudes partidárias para uma conversa aberta sobre uma pergunta simples — mas nada fácil de responder: porque não participamos (ainda) mais?
O debate, uma iniciativa que integrava o projeto internacional conhecido como “Acting4Democracy,” teve como tópico principal a participação cívica em Portugal. Foi frequentado por mais de 30 pessoas, não incluindo espectadores que vieram e mostraram interesse no evento.
Entre os primeiros participantes, contámos com a presença de representantes das juventudes partidárias mais significativas do país: a Juventude Social-Democrata e a Juventude Socialista. Também nos agraciaram com a sua presença representantes de várias associações da sociedade civil (não necessariamente baseadas em Aveiro) nas áreas ambiental, direitos de género e LGBT, e mais, como ORBIS, Bioliving, Rede Ex Aequo, entre outras.
Com a moderação de Diogo Albuquerque Nascimento, o debate começou pelo papel da economia (um tópico sempre relevante para os portugueses) na vida participativa. A primeira questão lançou o dilema: será que uma economia saudável onde as pessoas sejam financeiramente confortáveis leva a uma sociedade mais ativa? Ou será que funciona ao contrário: uma cidadania ativa e viva leva a uma economia dinâmica, proativa e mais rica? Pareceu haver um consenso de que claramente, finanças saudáveis ajudam. Com dinheiro para gastar, as pessoas passam a ter motivos para sair de casa e participar no comércio local. Mas não é esse o principal papel do “rendimento dispensável.” O dinheiro ajuda maioritariamente como um fornecedor de estabilidade em casa. Quando temos menos preocupações, é claro, temos mais motivação para nos mexermos e vivermos a vida.
O debate evoluiu então para outro tópico igualmente, ou talvez ainda mais importante: a educação. Uma cultura de participação e vida proativa semeia-se na juventude e nas escolas. E nesse sentido, não é que seja necessariamente o papel do Estado fomentar uma vida ativa, como questionava a próxima pergunta animadora do debate. O papel do Estado está em promover, nas escolas, uma educação que fomente o “espírito crítico,” falou-se. A definição de espírito crítico é turva, mas houve uma espécie de fio condutor: não assumir que tudo é verdade, enfrentar o mundo com algum cinismo, e ao mesmo tempo, fazer questões e estar mentalmente ciente da própria situação.
Chegamos, então, à maia uma questão do debate: qual o papel das redes sociais e tecnologias em massa na participação cívica - e, como pergunta bónus - será que proibir as redes sociais para menores de 16 anos vai ajudar a juventude a “viver mais organicamente”?
“Sim e não,” argumentaram os oradores na sua dialética.
Por um lado, proibir algo torna-o mais apetecível, e mesmo que se proíba agora, quase ninguém que tenha mãos e cabeça para mexer num telemóvel está “limpo” de redes sociais. Por outro lado, as redes sociais têm efeitos comprovadamente nocivos para a saúde mental. Para efeitos da participação ativa, têm um efeito crucialmente negativo: alargam os horizontes do utilizador de forma exagerada e tal que o ser humano não está preparado para tolerar. Por outras palavras: saber de tragédias que ocorrem por todo o mundo dessensibiliza-nos para tragédias à nossa volta. Dessensibiliza-nos, aliás, para tudo. Faz com que não queiramos sair de casa, voluntariar, protestar, ir ao teatro, porque pensamos: para quê? Não vai fazer diferença nenhuma.
E assim acabou o debate. Devido a constrangimentos de tempo, chegou ao fim precocemente e para a tristeza de todos, mas o evento correu de tal forma bem que se prometeu uma segunda edição sem falha!
De acordo com a OCDE, Portugal é um país com as condições perfeitas para uma vida democrática ativa e acentuada: a liberdade de expressão é das mais protegidas no mundo, e reinam a estabilidade e a segurança, especialmente num mundo cada vez menos previsível. E no entanto, Portugal também é dos países da OCDE onde a sociedade civil mais adormecida é. As pessoas têm poucas iniciativas, e quando têm, não há motivação ou financiamento para as levar a cabo. O objetivo deste debate foi, precisamente, promover uma dialética que nos ajudasse a entender porquê.
“Participar neste debate foi uma experiência muito enriquecedora. O formato fishbowl criou um espaço diferente, onde ouvir os outros se tornou tão importante quanto falar. A conversa sobre participação cívica em Portugal levantou muitas perguntas — desde o papel do contexto económico e cultural até à forma como as cidades ou a nossa relação com a natureza podem influenciar o envolvimento democrático. Foi inspirador trocar perspetivas tão diversas e refletir, em conjunto, sobre como podemos construir uma sociedade mais ativa e participativa” - relatou uma participante.
Embora o debate não tenha conduzido a soluções simples ou respostas prontas, deixou algo igualmente importante: novas perguntas e uma maior consciência sobre as possíveis causas da baixa participação cívica. A reflexão partilhada ao longo da conversa acabou por inspirar muitos dos participantes a olhar para o tema com mais atenção e espírito crítico. Esperamos que, a partir destas trocas de ideias, cada um possa levar algumas pistas para o seu trabalho futuro e experimentar novas formas de motivar os jovens a participar mais ativamente na vida da comunidade.
O nosso projeto Erasmus+ “A4D: Acting 4 Democracy”, organizado em parceria com a organização CEKOM, está a aproximar-se do seu final, mas sentimos que esta conversa está longe de terminar. Pelo contrário, ao longo do percurso percebemos que ainda há muito por explorar, compreender e experimentar quando falamos de participação cívica e envolvimento dos jovens. Por isso, mesmo após o encerramento formal do projeto, a Agora Aveiro pretende continuar a criar espaços de reflexão, diálogo e ação em torno destas questões, procurando novas formas de incentivar uma participação mais ativa na nossa comunidade.
Esta iniciativa local foi realizado no âmbito do projeto “Acting for Democracy: Defending European Values with Theatre and Activism”, organizado pela Agora Aveiro em colaboração com a associação da Sérvia CEKON ao abrigo das Parcerias de Pequena Dimensão para a Juventude (KA210-YOU) do programa Erasmus+. Tem ainda o apoio do Município de Aveiro.
Diogo Nascimento